Foi ali
Uma história cheia de testemunhas. Ninguém sabe o que aconteceu.

Não, eu não vou falar sobre aquilo que aconteceu ou como aconteceu. Não adianta. Por mais frívolo que tenha sido, me causou um desconforto, um negócio por dentro. Eu sei, parece uma bobagem, ainda mais sentado aqui na sua frente, esperando um retorno. Mas não, não sou obrigado.
Saí de casa, peguei o carro, andei na chuva, esqueci a sombrinha para sempre no fundo, depois do assento do passageiro. Molhado, cabelo pingando, pelo menos lembrei do casaco. Antes disso e ainda seco, escutava as músicas agora antigas na rádio que todo mundo conhece. Leve, vim pronto para falar.
Atravessei a rua e me vi na calçada entre uma poça enorme de água de bueiro e um ônibus cortando o trânsito como quem vai tirar a mãe da forca. Algo se mexeu dentro de mim, aquele medo novamente. Trocamos olhares, eu, os faróis daquela besta, imagine, tão perto daqui. Ele me viu de longe, a faixa ao meu lado livre e o sinal amarelava. Avançou, a mãe na forca. O palavrão preso na garganta.
Não abri a boca ali, a beber a água de rato. E então, não abro a boca aqui. A viagem foi minha, o tempo é seu, me perdoe. Talvez nós dois perdemos um pouco, talvez eu ganhe coragem para amadurecer as decisões de tudo o que foi. Se espalho a notícia, abro para opiniões que não pedi e decisões, mesmo sem querer, que vão pesar para algum lado. É impossível agradar a todo mundo.
Quero meu viés, meu agrado. É da minha vida que estamos falando e não sou figura pública. Só porque isso aconteceu e me tornou célebre, não foi algo que eu pedi. Sou quase uma vítima, não tivesse atuado naquele instante, fosse uma pessoa ruim ou afeito a dramas novelescos.
E não, não adianta insistir, obrigado pelo café. Sem açúcar mesmo. Podemos falar sobre outra coisa, vai me distrair desse cabelo ensopado, a calça grudada nas pernas. A mochila se salvou, guardou bem os papeis. Sim, preciso baixar a cabeça, sinto um pouco de vergonha e, agora. Um instante. Desculpe se tusso, um pigarro não me deixa, deve ser da idade ou desse tempo.
Foi sem querer, não sei como caí nisso. Eu achei que ia vencer e até venci, ao que parece. Bom, você está aqui, como resultado. Ah, se eu te contasse… não me entenda mal, eu quero que você saiba e eu sei onde isso vai parar. Sim, pode ser bom. Tá bom, vamos lá. Já quase esqueci o motivo do alarde por algo tão pequeno. Na internet? A gente esquece que tem uma vida que se espalha à nossa revelia. Sim, ótima história, mesmo besta e tudo verdade, cheia de testemunhas, mas ninguém sabe como aconteceu. Só eu.
Era uma noite comum, como será a de hoje, o aguaceiro pedindo para despencar. Sim, chove demais nessa época. A mochila e o guarda-chuva do carro na mão. Veja só, outro café? Obrigado, aceito. Sim, sem açúcar, está frio mesmo, a calça não me deixa esquentar. Todo mundo andando rápido e eu parado no semáforo, esperando o sinal. A chuva e aquele barulho. Foi ali.
Não, água não, obrigado, tenho suficiente do jeito em que me encontro. Vamos fazer o seguinte, volto outro dia, tomo seu café seco, sem pigarro. Não, entenda, é melhor assim. Sim, isso. Com calma, é o tempo que me preparo, ajeito o cabelo, a roupa. Sim, um dia como esse, mais tarde, eu atravessava a rua. Sim, foi ali. Não, talvez… talvez mais tarde, mas aqui perto sim. Não preciso de mais café ou não durmo nunca mais. Ainda mais depois disso tudo. É preciso ter alguma confiança e agora, com a calça, me falta. Não se preocupe em se levantar, me despeço aqui e peço desculpas, olha o estado da cadeira. Esta calça, o bueiro. E pensar que eu vim para tudo, e saio assim. Aquela besta, sem freio. Isso, melhor, eu volto depois.
Aproveitei este post do The Paris Review, para este exercício a partir do prompt:
Exercise for Eloquence
Write a story in which the narrator refuses to tell the story. Permit the narrator to come close to telling the story—perhaps to long to tell the story, to speculate about how much fun it would be to tell the story, to stumble and almost tell the story, to attempt (and fail) to speak about other things.
Em breve, trago mais novidades por aqui, além dos exercícios, respiros do cotidiano, nossos livros maravilhosos e os filmes fundamentais. :)


Desafiador esse prompt, rs
Adorei o texto e adorei o prompt. Agora precisa do “companion story” contando o que aconteceu pq eu fiquei curiosaaaaaaa
Adorei o jogo com o seco e o molhado, o frio e o quente, o se abrir ou guardar.
Tou gostando muito dessa nova fase do folhetim 😎